Em quase todas as discussões, é comum que uma ou mais premissas de base não sejam claramente expressas. Como essas premissas constituem base necessária ao argumento, sua rejeição inviabilizaria as conclusões que dependem delas. Todas as premissas necessárias deveriam ser explicitadas, mesmo as consensuais. O consenso apenas elimina, provisoriamente, a necessidade de discuti-las.
É também comum que tais premissas de base sejam aceitas a partir de crenças de diversas naturezas. Nesses casos, suas aceitações não decorrem de confrontos com fatos interindividuais, mas de convicções não arbitráveis por tais fatos. Isso corrói a racionalidade da discussão, tornando-a debate sobre opiniões individuais ao invés de discussões sobre conclusões lógicas passíveis de confrontações.
Esses debates são frequentes quando as premissas fundamentais decorrem de convicções pessoais que não podem ser arbitradas por fatos compartilhados. Tais bases são subjetivas e deslocam o debate do cerne da racionalidade lógica. Aqui, tomo como referência a lógica científica — esta é minha premissa explícita.
O problema maior ocorre quando se acredita que todas as premissas necessárias já estão presentes, quando na verdade não estão. Por não estarem, os debatedores permanecerão discutindo consequências, sem enfrentar as premissas mais básicas das quais elas dependem.
Tal clareza de pensamento e entendimento é algo que os seres humanos precisam, necessariamente, aprender para conseguirem desenvolver debates lógicos de boa qualidade. Em uma sociedade plural, na qual diferentes pessoas podem sustentar posições distintas, essa habilidade torna-se indispensável para que os debates produzam conhecimento em vez de apenas conflitos. Debater sob influência de preferências individuais contrárias é perda de tempo e promove mais irritação e brigas do que conciliações e evolução no conhecimento.
Aprender a identificar tais premissas “ocultas” é imprescindível e é algo que deveria já estar razoavelmente desenvolvido e treinado até a nona série do ensino fundamental, progredindo vertiginosamente no ensino médio e na graduação (quando houver). Essa é a base para o raciocínio crítico.
Em resumo, a qualidade de um debate depende menos da análise das conclusões e mais da explicitação e da crítica das premissas fundamentais. Assim, a educação fortemente direcionada por desejos não explícitos, ideológicos ou não, compromete seriamente a formação de mentes críticas. Considero tal aprendizado um ponto essencial para a Educação Científica nas escolas oficiais de qualquer sociedade aberta e democrática. Ser crítico não é simplesmente contestar conclusões. É identificar, explicitar e submeter à crítica as premissas fundamentais das quais essas conclusões dependem.
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